
Esse texto eu escrevi no ano passado, logo após o Dia dos Pais. Hoje, um ano depois, pergunto àqueles que ainda têm a sorte de ter os seus pais por perto: você já abraçou o seu pai hoje? Já o beijou e disse, com palavras ou com o olhar, que o ama muito? Esse texto fala sobre isso.
Uma das maiores dificuldades que encontrei na fase adulta foi conseguir demonstrar o amor que sinto pelo meu pai.
Em algum lugar perdido no tempo, deixei de ser a menininha que corria para a porta da sala ao menor ruído da chave girando. Onde foi parar aquela menininha que era capaz de passar horas a fio sentada no colo do pai só para ouvir sua voz e suas doces histórias? Que não perdia a oportunidade de abraçá-lo e beijá-lo? Que dizia “eu te amo” o tempo inteiro, através de palavras, gestos e desenhos?Não sei. Entre uma fase e outra da minha vida, talvez durante a rebeldia da adolescência, simplesmente deixei de ser a garotinha do papai e nunca mais encontrei o caminho de volta. Abraços, beijos, um “eu te amo” dito no meio de uma conversa, tudo isso ficou para trás. Em seu lugar, ficou a vergonha. Vergonha de abraçar, beijar, dizer “eu te amo”. Não uma timidez remota, mas uma vergonha grande que impede, bloqueia, ergue um muro à minha volta.
Nem mesmo em ocasiões especiais como Natal, aniversário e Dia dos Pais eu consigo transpor esse muro. Tantas vezes desejei dar um abraço mais forte, mas esse sentimento estranho me impediu de fazê-lo.
Por todo esse tempo, o meu maior medo era que meu pai fosse embora sem ouvir de mim, ao menos pela última vez, o “eu te amo” que aquela menininha de anos atrás tanto lhe dizia. Certa noite, ainda na adolescência, tivemos uma briga muito forte e fui dormir sem dizer “boa noite” para ele. De madrugada, fui acordada pela minha mãe, avisando que ele estava passando muito mal. Levantei de sobressalto e corri até o seu quarto, mas era tarde demais - ele havia falecido. Gritei, chorei, fui invadida por um violento sentimento de remorso. E nesse momento eu acordei, tinha sido apenas um pesadelo. Levantei e fui até seu quarto, ele estava dormindo. Desejei acordá-lo só para dar um abraço forte, pedir desculpas e dizer o quanto eu o amava, mas não consegui. Novamente, aquele muro intransponível não me permitiu agir de acordo com o meu coração.
Aos poucos, fui me conformando com a situação, sabendo que jamais serei capaz de encontrar o caminho de volta, jamais conseguirei demonstrar meus sentimentos para ele da forma linda que eu fazia quando era aquela menininha.
No Dia dos Pais desse ano, decidi que seria diferente. “Custe o que custar, darei um abraço forte nele e direi o quanto eu o amo.” Passei metade do dia com ele e nada! Só de pensar em colocar a minha resolução em prática, meu coração já acelerava e eu era tomada por uma angústia forte. Na hora de ir embora, já quase entrando no carro, virei e dei um abraço nele. Meio desajeitado, é verdade, mas foi um abraço. E nesse abraço eu consumi todo o meu estoque de coragem… Não sobrou nada para o “eu te amo”.
Voltei para casa feliz por ter conseguido abraçá-lo, mas ao mesmo tempo me sentindo mal por não ter dito finalmente, depois de tantos anos, que eu o amava. Perto da meia-noite, ainda estava triste comigo mesma e não conseguia dormir. Lembrei-me de haver recebido por e-mail uma mensagem linda falando sobre a gratidão de um filho para com o seu pai. Esse texto terminava com um “EU TE AMO” assim, em letras garrafais. Remexi na minha caixa de e-mails até encontrar a mensagem. Cliquei em “Encaminhar”, coloquei o endereço de e-mail do meu pai e, por fim, “Enviar”.
No dia seguinte, logo cedo, uma mensagem sua me aguardava. “Não sei como agradecer e retribuir tanta atenção, carinho, dedicação e afeto que você me tem proporcionado. Muito obrigado por este dia especial e pela oportunidade que o Bom Deus nos permitiu de ficarmos juntos. Beijos.”
Posso imaginar as lágrimas que certamente se formaram em seus olhos ao ouvir aquele “Eu te amo”, ainda que através da tela do computador, depois de tantos anos aguardando pelo retorno da sua terna garotinha

