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“Determinismo” ou “livre arbítrio”? Pode o “Gene” abolir nossa liberdade e responsabilidade?



Por Mafalda - 27 de março de 2012. Categorias: Mona em Família, Mona POP.

Achei este texto casualmente e quis compartilhar com os leitores do blog, até para saber a opinião de vocês.
Coincidentemente, há pouco tempo atrás estávamos eu, meu esposo,  e um amigo em comum, querido desde a adolescência, conversando sobre este tema. Este nosso amigo é extremamente “materialista”, não no sentido consumista (como costumamos relacionar), mas a ponto de não acreditar nem mesmo na psicologia como ajuda para alguns casos de transtornos. Acha que só remédio ajuda, pois não acredita em alma, espírito, tudo é matéria, tudo são genes.

Curiosamente, meu esposo lembrou de uma vez que este nosso amigo reclamou da preguiça da irmã. Ele dizia: “minha irmã não estuda, pois diz que é burra mesmo, então não adianta estudar!”  E agora, neste último encontro, ele estava agindo do mesmo jeito que sua irmã: “…sou um cara estressado, o médico já me disse, então nunca vou mudar. Só com remédios.”

Sei que para este meu amigo falar de “livre arbítrio” é como contar uma piada…. Mas eu concordo com o autor deste texto, que segue abaixo:

Pode o “Gene” abolir nossa liberdade e responsabilidade? “Determinismo” ou “livre arbítrio”?
Artigo de Jurgen Moltmann.

Determinismo ou livre arbítrio? Esse antigo debate volta hoje à atualidade na pesquisa genética e na pesquisa sobre os neurônios.

Somos gerados pelos nossos genes? Os genes existem na sua peculiaridade antes que a nossa consciência surja? Pilotam o nosso eu nos seus comportamentos? Determinam assim o curso das nossas vida e explicam por que nos tornamos como somos?

O conhecido jornalista norte-americano David Brooks escreveu em 2007 (Herald Tribune): “A partir do conteúdo dos nossos genes, da natureza dos nossos neurônios e da lição da biologia evolucionista, tornou-se claro que a natureza é constituída por competições e conflitos de interesses. A humanidade não surgiu antes das lutas pela sua própria afirmação. As lutas pela afirmação estão profundamente radicadas nas relações humanas”.

Disso, ele tirava como consequência a natural disposição à competitividade do capitalismo e uma “visão do mundo trágica”: “Assim como a natureza humana está predisposta tão agressivamente à luta pelo poder, precisamos de um Estado forte, de uma educação dura e de uma visão do mundo trágica”.

Trata-se do resultado de uma busca ou do interesse de uma ideologia? Eu acredito que se trate de pura ideologia naturalista, porque se fundamenta na redução do imprevisível sistema “homem” aos seus genes e neurônios previsíveis.

Assim, surge a fatal impressão de viver em um mundo fechado na sua causalidade, como se a nossa liberdade, que também percebemos no “tormento das escolhas”, fosse uma ilusão. Se fosse assim, qualquer criminoso diante de um tribunal deveria apelar à incapacidade de entender e de querer, para depois ser absolvido enquanto não imputável.

Craig Venter foi o primeiro a decifrar o genoma humano. Decodificou também o seu próprio genoma, que foi publicado em todos os maiores jornais. Se o pudéssemos ler, saberíamos quem é Craig Venter? Se ele mesmo pode lê-lo, ele chega depois a conhecer a si mesmo?

Quando o encontrei pessoalmente em Taiwan, há dois anos, ele me contou como a guerra do Vietnã, combatida quando jovem, o mudou. O seu genoma não expressa nada de tudo isso, naturalmente, mas então por que a tese determinista segunda a qual seríamos pilotados pelos nossos genes e não teríamos nenhuma liberdade de reagir às experiências de guerra deste ou daquele modo?

Demos então um exemplo: na revista científica Nature Genetics foi publicado recentemente um artigo no qual era demonstrado por pesquisas desenvolvidas em todo o mundo que são os genes que determinam se os jovens se tornam ou não fumantes. O estudo documentava pela primeira vez os fatores genéticos por causa dos quais, nos receptores cerebrais da nicotina, determina-se de qual modo se desenvolve a dependência e o comportamento com relação ao fumo.

Eu fumei muito de 1956 a 1976, depois deixei de fumar de um dia para o outro. Como pude fazer isso? A pesquisa genética, pelo que pude acompanhar, ultrapassou há muito tempo, nos seus expoentes, esse reducionismo ideológico.

A imagem da competitividade do gene egoísta, delineada por Richard Dawkins em 1978, é influenciada pelo darwinismo social. Os genes, de fato, são mais flexíveis do que os corpos sólidos, “ativam-se e desativam-se” e reagem aos influxos ambientais. As nossas experiências e as nossas relações com as outras pessoas, nas quais fazemos a experiência de acolhida ou de rejeição, influenciam também o funcionamento dos nossos genes.

O médico alemão Joachim Bauer, que se ocupa da psicossomática, afirma, assim: “Os genes não pilotam apenas, são também pilotados” (Princípio Humanidade, 2006). Nas pesquisas sobre a inteligência, também são consideradas hoje mais as condições de vida do que as predisposições genéticas.

Chego ao resultado segundo o qual o determinismo genético e neurológico não é capaz de abolir a nossa liberdade, a nossa responsabilidade, nem a nossa imputabilidade. Pode-se aprovar ou rejeitar isso, mas as ideologias não explicam só os resultados de algumas pesquisas, sempre representam também os interesses de uma parte.

Quem hoje tem interesse em abolir a nossa liberdade e de tornar os homens manipuláveis?

Veja também:

4 Comentários to “Determinismo” ou “livre arbítrio”? Pode o “Gene” abolir nossa liberdade e responsabilidade?

  1. Gustavo C.

    “Temos o poder de desafiar os genes egoístas de nosso nascimento e, se necessário, os memes egoístas de nossa doutrinação.” – O Gene Egoísta – Richard Dawkins

    Concordo com essas palavras do Dawkins. O que somos começa nos genes, mas sofremos muitas mudanças ao longo da vida, crescemos, passamos por experiências, aprendizados, nosso cérebro está em constante dinâmica, portanto, acredito que existem possibilidades (pelo menos para a maioria de nós) de tomarmos um caminho ou outro na formação de nossa pessoa. E, segundo Dawkins, não só materialmente, geneticamente, e sim culturalmente, indo contra os “memes de nossa doutrinação”. Talvez os genes apenas determinem quem tem mais ou menos predisposição a ser uma pessoa desafiadora – mas essa capacidade existe.

    Há outro livro sobre o assunto, Tábula Rasa, do Steven Pinker, com a frase “A vida é um jogo de pinball no qual ricocheteamos por um campo de calhas e batentes. Talvez nossa história de colisões e raspões explique o que nos fez ser como somos.” Particularmente, tbm acredito que além de um corpo material, somos uma consciência imaterial. Sem querer me aprofundar no lado religioso do assunto, essa consciência é muito mais moldável ao longo da vida do que nossos genes, e ela tbm é muito poderosa, senão mais poderosa do que nosso código genético para definir quem somos.

    No fim é uma combinação de genética, experiências, ambientes e individualidade… nenhum desses fatores pode ser menosprezado em favor de outro. E entre os seres humanos há uma variedade inimaginável de pessoas, será que a mesma explicação serve para todos?

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    Mafalda Resposta:

    Gustavo, sobre a consciência imaterial, tem um livro muito interessante chamado “O cérebro espiritual – uma explicação neurocientifica para a existência da alma” – do neurocientista canadense Mario Beauregard e da jornalista Denyse O’Leary.

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    Gustavo C. Resposta:

    Opa, minha lista de livros pra ler só aumenta.. =)

    [Responder]

  2. Benedito Portela (Fortaleza) 38 Anos

    É realmente um texto interessante! Antigamente eu ouvi uma frase: “O Homem é um produto do meio”, de certo ponto dá pra se concordar, mas ao logo da minha vida eu percebi vários comportamentos diferentes das pessoas, claro do meu jeito de ver pois não sou estudioso de nenhum meio clínico ou social, e observando o comportamento das minhas filhas, eu concordo que parte do que somos vem dos genes, mas tudo o que somos é de responsabilidade das nossas escolhas, então não se pode dizer que o comportamento errado de algumas pessoas seja culpa só dos meios ou dos genes!
    Eu vejo que tem pessoas de personalidade forte e não se corrompe com o meio e já outras são altamente influenciáveis, acho que em todos os casos é muito importante a orientação moral e de valores que os pais passam! Acho difícil uma pessoa, quando criança, que teve estes valores passados, se torne uma pessoa ruim, mesmo assim creio que existam as exceções!
    Obg
    Bené

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